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Correr com ar poluído ou fumaça: o que a ciência mostra e quando treinar

Por · 2 de outubro de 2026 · Saúde, Nutrição e Lesões

Na grande maioria dos dias, correr ao ar livre numa cidade brasileira continua valendo a pena: nos modelos que comparam o ganho do exercício com o dano da poluição, o benefício só é anulado em concentrações raras e volumes de atividade muito altos. O que muda a conta são os episódios agudos, como a fumaça das queimadas de agosto a outubro. Nesses dias, a regra prática é simples: com o índice de qualidade do ar Ruim, tire o treino forte da rua e encurte o resto; com Muito Ruim ou Péssima, não corra ao ar livre. Quem tem asma ou doença do coração ou do pulmão começa a recuar uma faixa antes.

O assunto voltou à pauta com um estudo da Universidade de Leicester, no Reino Unido, publicado em setembro de 2026 na revista Sports Medicine - Open. Os pesquisadores cruzaram 2.756.553 tempos de chegada das seis World Marathon Majors com a poluição do dia da prova e encontraram tempos mais lentos quando o dióxido de nitrogênio (NO₂, gás ligado ao trânsito) estava mais alto. O efeito foi cerca de seis vezes maior entre os amadores do que na elite. Abaixo, o que a ciência sabe, como consultar o índice no Brasil e uma tabela de decisão para cada tipo de treino.

O que o estudo das seis maratonas mostrou, e o que ele não mostra

A equipe liderada por James Donaldson analisou as edições de 2010 a 2024 de Berlim, Boston, Chicago, Londres, Nova York e Tóquio, 75 provas ao todo. A poluição do dia veio de uma reanálise do serviço europeu Copernicus (CAMS), e o modelo descontou calor, umidade, vento e a tendência dos tempos ao longo dos anos.

Esse ponto pede cuidado, porque o PM2,5 é o poluente que domina a fumaça de queimadas. O próprio artigo mostra que a estimativa de PM2,5 do Copernicus bateu mal com as estações de solo em Boston e Chicago e que, sem Boston, surgiu um pequeno efeito na direção de tempos mais lentos. E um estudo de 2025 da Universidade Brown, com 2.564.811 tempos de nove grandes maratonas americanas (2003 a 2019), encontrou exatamente esse efeito: cada 1 µg/m³ a mais de PM2,5 no percurso se associou a 32 segundos a mais no tempo médio dos homens e 25 segundos no das mulheres, com efeito maior entre os corredores mais rápidos que a mediana, o contrário do padrão que Leicester viu com o NO₂.

Os dois trabalhos são observacionais: mostram associação, não provam causa, e medem a poluição de forma aproximada (em Leicester, num ponto perto da largada, com resolução de cerca de 11 km). O ozônio ficou de fora do modelo britânico e pode explicar parte do resultado. E os números não se comparam com a leitura de uma estação de avenida, porque a reanálise subestima o NO₂ medido na rua. A leitura útil é de direção: ar mais poluído no dia da prova tende a significar prova mais lenta, e o amador sente mais.

Por que quem corre inala muito mais poluição

O problema é o volume de ar que passa pelos pulmões. Segundo o guia de fumaça de incêndios da agência ambiental americana (EPA), durante o exercício uma pessoa pode aumentar de 10 a 20 vezes a quantidade de ar que inspira em relação ao repouso. A respiração fica mais profunda, o que muda onde as partículas se depositam no pulmão, e passa a ser feita em boa parte pela boca, o que dispensa o filtro natural do nariz. É o esperado em ritmo moderado e forte, e é o que recomenda o texto sobre como controlar a respiração na corrida: nariz e boca juntos. Com ar limpo, é a mecânica certa; com fumaça, é por onde entra a dose.

Daí sai a lógica das orientações oficiais: a dose de poluente cresce com a intensidade e com a duração. Por isso o tiro e o longão são os primeiros treinos a sair da rua, e a rodagem curta e leve é a última. As agências também apontam quem precisa recuar antes: pessoas com asma, doença pulmonar obstrutiva crônica ou doença cardíaca, idosos, crianças e adolescentes e gestantes, segundo o guia de material particulado da AirNow.

Vale a pena parar de correr por causa da poluição?

Para o hábito do ano inteiro, não. O trabalho mais citado é um modelo de Tainio e colegas, publicado em 2016 na Preventive Medicine (com participação de um pesquisador da Faculdade de Saúde Pública da USP). Ele estimou em que ponto o risco do PM2,5 inalado passaria a superar o benefício da atividade física para a mortalidade. Na concentração média das cidades do banco de dados da OMS, 22 µg/m³ por ano, o benefício supera o risco mesmo nos volumes de atividade mais extremos testados. Com uma média anual de 100 µg/m³, o dano passaria a superar o benefício depois de 1h30 de bicicleta por dia. Para meia hora diária de bicicleta, o empate só aconteceria com 160 µg/m³ de média anual.

A conta tem limites: usa médias de longo prazo (os autores avisam que picos de poucos dias podem ter efeitos extras), modela bicicleta e caminhada, que pedem menos ventilação que um treino de tiros, e olha mortalidade, não crises de asma ou rendimento. Conclusão prática: não deixe de correr pela poluição de fundo da cidade, mas leve a sério os dias de episódio agudo.

Agosto a outubro: a temporada de fumaça e ar seco

No fim do inverno e começo da primavera, boa parte do país junta tempo seco e queimadas. Em setembro de 2026, Manaus voltou a ficar coberta de fumaça: o jornal O Tempo registrou picos de 291 µg/m³ de material particulado na manhã de 23 de setembro, pela rede de monitoramento da Universidade do Estado do Amazonas, e o Programa Queimadas do Inpe contou 3.240 focos no estado entre 1º e 22 de setembro, alta de 244% sobre o mesmo período de 2025. O Sudeste também conhece o problema: em 10 de setembro de 2024, segundo a Agência Brasil, 14 das 22 estações da Cetesb na Grande São Paulo marcavam qualidade Ruim e 3 marcavam Muito Ruim, com o PM2,5 como principal poluente.

Fumaça branca saindo de um trecho de mata queimada ao lado de prédios residenciais altos, com um caminhão de bombeiros na rua à direita
Fogo em vegetação dentro da cidade: na temporada seca, a fumaça de focos próximos e de queimadas distantes se soma à poluição do trânsito. Foto: Rodolfo Gaion / Pexels

A fumaça se comporta diferente da poluição do trânsito. O guia da EPA descreve que, perto do fogo, ela tende a escorrer e se acumular nos vales à noite e sair no dia seguinte, enquanto em cidades mais distantes pode chegar no meio ou no fim da tarde e ficar durante a noite. Inversões térmicas podem prender a fumaça por dias. Por isso não existe horário seguro fixo em dia de fumaça: olhe o dado da hora antes de sair.

Como consultar a qualidade do ar antes de sair

No Brasil, os órgãos ambientais divulgam o Índice de Qualidade do Ar (IQAr), uma escala de cinco faixas calculada pelo pior poluente medido na estação. Os números do índice são estes:

A Resolução Conama 506/2024 mandou atualizar o cálculo, e a divulgação pelo novo método passou a valer em janeiro de 2026. A principal mudança para o corredor: a faixa Boa do PM2,5 agora vai só até 15 µg/m³ na média de 24 horas, o valor de curto prazo recomendado pela OMS (antes, em São Paulo, ia até 25 µg/m³). Na prática, alguns dias que antes saíam como Bons hoje aparecem como Moderados.

  1. Estado de São Paulo: a Cetesb publica os dados das estações automáticas de hora em hora no site cetesb.sp.gov.br/ar, além de um boletim diário e de um aplicativo próprio, segundo o relatório de metodologia da companhia.
  2. Outros estados: o MonitorAr, do Ministério do Meio Ambiente, reúne as estações das redes estaduais. Muitas cidades não têm estação oficial; use a mais próxima com cautela.
  3. Fogo: o portal do Programa Queimadas do Inpe mostra os focos de calor detectados por satélite. Ele não mede o ar que você respira, mas ajuda a entender se há fumaça vindo na sua direção.
  4. Aplicativos e sensores de baixo custo: cobrem bairros sem estação, mas muitos mostram o índice americano (AQI), de 0 a 500. Um 100 no AQI americano ainda é o teto da faixa moderada de lá; 100 no IQAr brasileiro já é Ruim. Não misture as escalas.

Um detalhe que muda a decisão: o índice do PM2,5 é calculado sobre a média de 24 horas, então o número do dia pode esconder uma manhã ou uma tarde muito pior. Para decidir se sai agora, olhe a concentração da última hora na estação mais próxima, além da categoria do dia.

Leve, tiros ou longão: o que fazer em cada faixa do índice

A tabela abaixo traduz para os três treinos mais comuns da semana as recomendações da Cetesb para cada faixa do IQAr e os guias de ozônio e de material particulado da AirNow. A Cetesb fala em reduzir ou evitar "esforço físico pesado ao ar livre"; aqui, esforço pesado é tiro, treino de ritmo e subida forte, e o longão entra como esforço prolongado. É uma leitura conservadora das orientações, não um protocolo médico.

Faixa do IQArRodagem leveIntervalado e treino de ritmoLongãoAsma, doença cardíaca ou pulmonar
Boa (0 a 40)NormalNormalNormalNormal, com o plano de tratamento em dia
Moderada (41 a 80)Normal; prefira rotas longe de avenidasPode manter; corte se surgir tosse ou falta de ar fora do comumPode manter; fuja do trânsito e, em dia de calor, da tardeReduzir o esforço pesado ao ar livre: tiros na esteira ou troca por leve
Ruim (81 a 120)Mais curta, ou na esteiraNa esteira ou em local fechado com ar aceitável; se não der, adiarEncurtar, dividir em duas partes ou adiar para um dia melhorSem esforço pesado ao ar livre; treinar em local fechado
Muito Ruim (121 a 200)Só em local fechado; ao ar livre, no máximo curta e bem leveAdiar ou fazer em local fechadoAdiarEvitar o esforço ao ar livre
Péssima (acima de 200)Não correr ao ar livreAdiarAdiarEvitar qualquer esforço ao ar livre; ficar em ambiente com ar filtrado

Duas regras valem em qualquer faixa. Primeiro, sintoma manda mais que índice: tosse persistente, chiado, aperto no peito ou falta de ar desproporcional ao ritmo são motivo para encerrar o treino. Quem tem asma deve seguir o plano de ação combinado com o médico e levar a medicação de alívio. Segundo, para quem tem doença cardíaca, palpitação, falta de ar ou cansaço incomum durante um episódio de poluição podem indicar algo sério, e a orientação da AirNow é procurar atendimento. Dor no peito que não passa com repouso é caso de pronto-socorro, com ou sem fumaça.

Horário, rota e esteira: o que reduz a dose de verdade

Horário. O ozônio se forma com sol e calor e, segundo a EPA, é mais alto à tarde e no começo da noite; em dia quente e ensolarado, a manhã é a melhor janela. Bate com o texto sobre o melhor horário para correr, que aponta o fim da tarde como pico da poluição do trânsito, e com os autores de Leicester, que sugerem largadas mais cedo porque a poluição do tráfego costuma ser menor. A exceção é a fumaça, que não segue relógio.

Rota. O NO₂ vem principalmente do escapamento e, como lembram os autores de Leicester, varia muito de um lugar para outro em distâncias curtas, ao contrário do PM2,5. A AirNow recomenda se exercitar longe de ruas de tráfego intenso, e a Cetesb pede que pessoas com doença cardíaca evitem essas vias em dias de índice alto. Trocar a avenida por um parque ou ruas residenciais reduz a exposição ao trânsito, mas não resolve a fumaça, que cobre a cidade inteira.

Fileira de esteiras ergométricas junto a janelas de vidro numa academia, com duas pessoas correndo nas esteiras do fundo
Em dia de índice Ruim, levar os tiros para a esteira mantém o treino de qualidade sem a dose extra de poluição da rua, desde que o ar do lado de dentro também esteja aceitável. Foto: Birk Enwald / Unsplash

Esteira. O guia da EPA diz que não há motivo para desencorajar o exercício em ambiente fechado com ar aceitável. A ressalva vem no guia de material particulado: quando as partículas estão altas lá fora, podem estar altas também dentro de casa, principalmente com janelas abertas. Academia com janelas fechadas e ar-condicionado com boa filtragem é a opção mais segura. Para os ajustes de inclinação e de ritmo, veja as diferenças entre correr na esteira ou na rua.

Intensidade e duração. Como a dose cresce com a ventilação, baixar o ritmo é uma proteção real, não um prêmio de consolação. Em semana de fumaça, uma saída é trocar a sessão de treino intervalado por uma rodagem leve e devolver os tiros quando o ar melhorar. No caso do longão de fim de semana, adiar um ou dois dias costuma custar menos do que fazer 90 minutos respirando fumaça.

Máscara PFF2 funciona para correr na fumaça?

Funciona como filtro, mas não transforma dia de fumaça em dia de treino forte. A PFF2, equivalente brasileira da N95, retém partículas quando está bem vedada no rosto; máscara cirúrgica ou de pano protege pouco ou nada contra fumaça, segundo o guia da EPA. O mesmo guia lista os limites: a PFF2 não filtra gases como ozônio e NO₂, barba impede a vedação, e respirar através dela fica mais difícil. Usar respirador durante atividade física ou no calor pode aumentar o risco de problemas causados pelo calor, e quem tem doença cardíaca ou pulmonar deve conversar com o médico antes de usar.

O uso sensato é no deslocamento ou numa atividade leve inevitável ao ar livre. As orientações oficiais tratam o respirador como proteção para quem precisa ficar exposto, não como licença para treino intenso na fumaça. Úmida, deformada ou difícil de respirar, troque.

E se a prova cair num dia de ar ruim?

Os autores de Leicester recomendam que corredores e treinadores ajustem o ritmo em dia de ar poluído. Na véspera, confira o índice da cidade. Com Moderada, corra normalmente. Com Ruim, trate a prova como um dia quente: largue mais devagar, esqueça o recorde e use a estratégia de não estourar nos primeiros quilômetros. Com Muito Ruim ou Péssima, vale considerar não largar, principalmente se você estiver num dos grupos sensíveis. Acompanhe os avisos da organização até a manhã da corrida.

Fontes desta matéria

Leandro Lima

Leandro Lima

Editor-chefe e corredor de rua

Leandro Lima é editor-chefe do ecorrida.com.br e corredor de rua desde 2017, quando saiu do sedentarismo e levou oito meses para completar seus primeiros 5 km. Já correu mais de 40 provas, entre elas quatro meias maratonas e uma maratona. Escreve sobre treino, equipamento e prevenção de lesões para quem está começando.